quarta-feira, março 30, 2005
CINE7, crítica de cinema
Vale a pena ficar atento a este novo blogue colectivo de crítica cinematográfica: CINE7, críticas de cinema. A dinâmica (cada elemento tem um dia da semana para fazer a apresentação de um filme) parece-me muito interessante. O design e a qualidade das imagens são outros pontos de interesse; sem esquecer que alguns dos autores deste blogue são alunos da Universidade do Algarve.
Webcast de Seminário Internacional de Cinema e Audiovisual
Universidade Federal da Bahia, Brasil
O seminário está a decorrer entre 28 e 31 de Março, 2005 sendo possivel assistir às comunicações ao vivo, via web,
http://www.bahiamultimidia.com.br/cinema
Os keynoters incluem entre outros,
Costa-Gavras
Michel Marie
Robert Stam
No programa existe ainda uma mesa redonda dedicada ao "O MERCADO IBERO-AMERICANO E AS POLÍTICAS PÚBLICAS DO AUDIOVISUAL", na qual Portugal será representado por Elísio Cabral de Oliveira – Instituto de Cinema, Audiovisual e Multimédia.
O seminário está a decorrer entre 28 e 31 de Março, 2005 sendo possivel assistir às comunicações ao vivo, via web,
http://www.bahiamultimidia.com.br/cinema
Os keynoters incluem entre outros,
Costa-Gavras
Michel Marie
Robert Stam
No programa existe ainda uma mesa redonda dedicada ao "O MERCADO IBERO-AMERICANO E AS POLÍTICAS PÚBLICAS DO AUDIOVISUAL", na qual Portugal será representado por Elísio Cabral de Oliveira – Instituto de Cinema, Audiovisual e Multimédia.
quarta-feira, março 23, 2005
Da crónica de Pedro Mexia...
no DN de ontem
"Cinema de manhã? Impossível. Impensável. Cinema é escuro. Escuro na sala e escuro na rua. Escuro para ver a luz. Escuro para sublinhar a luz. Cinema é noite e noite escura, noite dentro, madrugada."
"Cinema de manhã? Impossível. Impensável. Cinema é escuro. Escuro na sala e escuro na rua. Escuro para ver a luz. Escuro para sublinhar a luz. Cinema é noite e noite escura, noite dentro, madrugada."
quinta-feira, março 17, 2005
Ciclo de Cinema Italiano na UAlg

Cinema de Autor
»» Amarcord ::: F. Fellini ::: 17 Março
»» Roma citta’ aperta ::: R. Rossellini ::: 29 Março
Comédia à Italiana
»» La ragazza con la pistola ::: M. Monicelli ::: 7 Abril
»» La Famiglia ::: E. Scola ::: 19 Abril
Jovens Realizadores
»» L’ultimo Bacio ::: G. Muccino ::: 3 Maio
»» Lamerica ::: G. Amelio ::: 19 Maio
»» Pane e Tulipani ::: S. Soldini ::: 31 Maio
Entrada gratuita
Edifício da Reitoria :: sala 1.37 :: 20h
lcampitti@ualg.pt
quarta-feira, março 16, 2005
(Ainda) a História de Um Segredo
A Ana Soares já chamou a atenção para a passagem deste filme no próximo dia 18, em Faro, no auditório do IPJ, integrado no presente ciclo do CCF (e já o José Carlos Abrantes tinha feito o mesmo aquando da passagem deste documentário pelo IPF em Lisboa). Mas para quem ainda esteja com dúvidas em aproveitar a oportunidade rara que se nos apresenta para ver este filme de Mariana Otero, aqui fica um pequeno texto da autoria da realizadora, retirado da página de divulgação do mesmo pela Atalanta Filmes:
"Enquanto documentarista sempre contei a história dos outros. Neste documentário, fui confrontada pela dificuldade de contar a minha própria história. Mas sabia que seria difícil interessar-me por outros temas, enquanto não tivesse conseguido reapropriar-me da minha história. Contá-la não era só contar o conteúdo do segredo, mas também fazer com que o espectador vivesse a experiência singular deste segredo e da sua revelação. Por um lado, tinha a história que tinha vivido, que eu me contava até àquela data e que me tinha deixado satisfeita apesar das suas falhas e recantos obscuros. Por outro lado, a história que acabava de saber, para além de perturbadora, voltava a dar sentido ao improvável. Havia também uma série de outras histórias que continuavam escondidas e a ser tabu. "
Incentivando o visionamento deste filme, quero relembrar as palavras de Félix Guattari: "Vamos ao cinema para suspender por algum tempo os modos de comunicação habitual", já que esta afirmação tanto se aplica a filmes de tendências escapistas às realidades como a filmes de aproximação e de reencontro com a realidade e as histórias que os originaram, o que é o caso.
"Enquanto documentarista sempre contei a história dos outros. Neste documentário, fui confrontada pela dificuldade de contar a minha própria história. Mas sabia que seria difícil interessar-me por outros temas, enquanto não tivesse conseguido reapropriar-me da minha história. Contá-la não era só contar o conteúdo do segredo, mas também fazer com que o espectador vivesse a experiência singular deste segredo e da sua revelação. Por um lado, tinha a história que tinha vivido, que eu me contava até àquela data e que me tinha deixado satisfeita apesar das suas falhas e recantos obscuros. Por outro lado, a história que acabava de saber, para além de perturbadora, voltava a dar sentido ao improvável. Havia também uma série de outras histórias que continuavam escondidas e a ser tabu. "
Incentivando o visionamento deste filme, quero relembrar as palavras de Félix Guattari: "Vamos ao cinema para suspender por algum tempo os modos de comunicação habitual", já que esta afirmação tanto se aplica a filmes de tendências escapistas às realidades como a filmes de aproximação e de reencontro com a realidade e as histórias que os originaram, o que é o caso.
Blogues sobre cinema
Existem vários blogues portugueses sobre cinema. Alguns deles aparecem neste site, organizados segundo os votos dos bloguéfilos(!)...


Dois filmes recentes, muitas questões
Mais um reconhecimento Zézé Gamboa e o seu filme O Herói.
(ver post de 16 de Março). Curioso também o artigo do Le Monde sobre Os Coristas, artigo que podem ler num outro post do mesmo dia.
(ver post de 16 de Março). Curioso também o artigo do Le Monde sobre Os Coristas, artigo que podem ler num outro post do mesmo dia.
segunda-feira, março 14, 2005
film-philosophy
Sugestão
http://www.film-philosophy.com
Um dos melhores repositórios de informação internacional actualizada sobre estudos fílmicos online. Funciona como Journal e Fórum (Salon). No fórum troca-se muita informação fílmica diariamente, nomeadamente ideias ou ajudas para a escrita de artigos científicos.
O fórum pode por vezes não ser interessante, contudo o site possui um enorme valor pela sua actualização quase diária resumindo muito do que se passa no mundo dos estudos filmicos (conferencias, journals, eventos, links, etc.)
http://www.film-philosophy.com
Um dos melhores repositórios de informação internacional actualizada sobre estudos fílmicos online. Funciona como Journal e Fórum (Salon). No fórum troca-se muita informação fílmica diariamente, nomeadamente ideias ou ajudas para a escrita de artigos científicos.
O fórum pode por vezes não ser interessante, contudo o site possui um enorme valor pela sua actualização quase diária resumindo muito do que se passa no mundo dos estudos filmicos (conferencias, journals, eventos, links, etc.)
terça-feira, março 08, 2005
AINDA CAVELL
Pedro Mexia escreveu ontem no DN sobre Cavell.
segunda-feira, março 07, 2005
FLEURETTE, de Serge Treffaut
HOJE
DIA 7 DE MARÇO ÀS 21H00
CINEMA NO IFP CICLO “FAMÍLIA ODEIO-TE
FLEURETTE De
SERGE TRÉFAUT
COM A PRESENÇA DO REALIZADOR
Dia 14 de MARÇO às 21h00
HISTÓRIA DE UM SEGREDO
de
MARIANA OTERO
Continua no Instituto Franco-Português o ciclo de cinema “Família, odeio-te” . Depois do filme de Delphine de Blic (La trace vermillon) é a vez de “FLEURETTE” de Sérgio Tréfaut que será projectado dia 7 de Março no auditório do Instituto às 21h00. O realizador estará presente para apresentar o filme e conversar com o público no final da projecção.
7 de Março, 21h00, IFP
Fleurette
de Serge Tréfaut, Portugal, 2003, Betacam Digital, 80
Grande Prémio do Festival Les Écrans Documentaires de Gentilly (França)
Um filho procura compreender o passado atribulado da mãe, Fleurette, de 79 anos. Embora a mãe coloque obstáculos ao questionamento, pouco a pouco, ao longo do filme, desvenda acontecimentos secretos ou voluntariamente esquecidos; quase uma outra vida - que surge como uma revelação
14 de Março, 21h00, IFP
Histoire d’un secret / História de um segredo
de Mariana Otero, França, 2003, 1h35
Mariana Otero tinha quatro anos e meio quando a mãe, a pintora Clotilde Vautier, morreu. Primeiro disseram-lhe a ela e à irmã que a mãe tinha ido trabalhar para Paris. Ano e meio mais tarde a avó diz-lhes que afinal ela tinha morrido aquando de uma operação ao apêndice. Vinte cinco anos mais tarde o pai, diz-lhes a verdade rompendo o tabu. A mãe tinha falecido na sequência de um aborto clandestino.
Construído como um enigma policial o filme desvenda, ao longo dos encontros com os membros da família, a experiência singular deste segredo e da sua revelação. E, retirando do armário onde haviam sido escondidos os quadros sensuais da mãe, Mariana Otero faz renascer a presença de uma mãe morta e esquecida e presta homenagem à mulher e pintora.
Mariana Otero diplomada pelo l’IDHEC, enveredou, desde 1987, pela carreira de cineasta de documentário. Em 2000, junta-se à equipa dos Ateliers Varan.
Margarida Antunes da Silva
Attachée de Presse
Institut Franco-Portugais
Av. Luís Bívar, 91
1050-143 LISBOA
Tel: (351) 21 311 14 27
Fax: (351) 21 311 14 63
DIA 7 DE MARÇO ÀS 21H00
CINEMA NO IFP CICLO “FAMÍLIA ODEIO-TE
FLEURETTE De
SERGE TRÉFAUT
COM A PRESENÇA DO REALIZADOR
Dia 14 de MARÇO às 21h00
HISTÓRIA DE UM SEGREDO
de
MARIANA OTERO
Continua no Instituto Franco-Português o ciclo de cinema “Família, odeio-te” . Depois do filme de Delphine de Blic (La trace vermillon) é a vez de “FLEURETTE” de Sérgio Tréfaut que será projectado dia 7 de Março no auditório do Instituto às 21h00. O realizador estará presente para apresentar o filme e conversar com o público no final da projecção.
7 de Março, 21h00, IFP
Fleurette
de Serge Tréfaut, Portugal, 2003, Betacam Digital, 80
Grande Prémio do Festival Les Écrans Documentaires de Gentilly (França)
Um filho procura compreender o passado atribulado da mãe, Fleurette, de 79 anos. Embora a mãe coloque obstáculos ao questionamento, pouco a pouco, ao longo do filme, desvenda acontecimentos secretos ou voluntariamente esquecidos; quase uma outra vida - que surge como uma revelação
14 de Março, 21h00, IFP
Histoire d’un secret / História de um segredo
de Mariana Otero, França, 2003, 1h35
Mariana Otero tinha quatro anos e meio quando a mãe, a pintora Clotilde Vautier, morreu. Primeiro disseram-lhe a ela e à irmã que a mãe tinha ido trabalhar para Paris. Ano e meio mais tarde a avó diz-lhes que afinal ela tinha morrido aquando de uma operação ao apêndice. Vinte cinco anos mais tarde o pai, diz-lhes a verdade rompendo o tabu. A mãe tinha falecido na sequência de um aborto clandestino.
Construído como um enigma policial o filme desvenda, ao longo dos encontros com os membros da família, a experiência singular deste segredo e da sua revelação. E, retirando do armário onde haviam sido escondidos os quadros sensuais da mãe, Mariana Otero faz renascer a presença de uma mãe morta e esquecida e presta homenagem à mulher e pintora.
Mariana Otero diplomada pelo l’IDHEC, enveredou, desde 1987, pela carreira de cineasta de documentário. Em 2000, junta-se à equipa dos Ateliers Varan.
Margarida Antunes da Silva
Attachée de Presse
Institut Franco-Portugais
Av. Luís Bívar, 91
1050-143 LISBOA
Tel: (351) 21 311 14 27
Fax: (351) 21 311 14 63
NOTAS SOBRE O QUINTO IMPÉRIO
Leonor Areal, autora dos documentários Ilusíada: A minha vida e de Geração Feliz enviou-me estas notas tomadas numa conversa de Manoel de Oliveira com estudantes a propósito do seu último filme.
Uma lição aos estudantes
O Quinto Império, novo filme de Manoel de Oliveira
Adaptando um poema teatral de José Régio, Oliveira encena, com uma sobriedade extrema e num quase espaço único, as dúvidas do rei D. Sebastião em diálogo com seus conselheiros, antes de partir para o norte de África. A acção dramática segue-se com imenso interesse, mantendo-nos suspensos do seu desenvolvimento, à medida que vamos compreendendo o grau de loucura deste rei. Os actores são excelentes e fazem-se entender perfeitamente mesmo quando o texto tende para o arcaizante. Ricardo Trêpa incarna um D. Sebastião de modo tão convicto e convincente que torna real a memória desta personagem histórica.
A projecção deste filme, numa sessão para estudantes (cinema Monumental, em Lisboa, 4 de Março 2005), foi seguida de uma "lição" por Manoel de Oliveira a partir das variadas perguntas dos espectadores. As respostas do realizador surpreendem-nos sempre por serem tão lúcidas quão simples e desarmantes. Transcrevo de seguida algumas notas - sintéticas e esquemáticas - tomadas durante o debate.
Pergunta - O que pensa de Jean Vigo?
Manoel de Oliveira- O Jean Vigo não vem a propósito do Quinto Império. Teve um começo parecido com o meu. Tinha uma irreverência que não é agressiva nem ofensiva. Participou na criação de cineclubes. Na altura era um realizador que não estava na moda.
João Mário Grilo - Sobre a relação teatro/cinema: a peça de José Régio passada a cinema produz uma mudança na natureza da coisa. Quando acaba o filme, pensamos que estamos diante do verdadeiro D. Sebastião. O filme dá-lhe uma figura carnal. (A figura em nome da qual é feito o NON.)
MO - Da literatura veio o teatro, que é uma representação carnal, de que deriva depois o cinema, que é a continuação do próprio teatro, que é a representação da vida. O que representamos (no teatro) são as convenções que a vida tem. A vida é impossível de transpor, a não ser através dos actores, no teatro como no cinema - onde as imagens são imateriais, ao contrário do teatro. O espectador é que pode transpor, de uma imagem imaterial para uma imagem material, aquilo que o rei é (não o que o actor é). É o cinema enquanto sonho, o lado onírico do cinema. Quando era a preto e branco e sem som, o cinema provocava medo, etc. Quando ganhou cor e som, entrou numa fase que se aproxima mais da realidade - a imitação mais próxima. Assim, aceito que as pessoas vejam nestas imagens imateriais um rei material - como se fosse um sonho.
P - Em que medida a União Europeia incarna o quinto império?
MO - A UE é uma incarnação do quinto império. Qual era a intenção do quinto império? Um só rei, um só papa, ou, como dizia o Padre António Vieira, uma só crença, um só comando - para que não houvesse divergências e lutas. É o que pretende a união europeia. O quinto império é um desejo utópico de há muito tempo, na civilização ocidental europeia e também da civilização muçulmana. Um campo de harmonia universal. Aí está.
P - Que referências usou para fazer o filme?
MO - As referências foram a peça de José Régio, Eugénio Lisboa, Padre António Vieira, Camões, etc. E a 'janela do quinto império', a 'sala do quinto império'. Todas as referências históricas possíveis, acumulei-as, mas respeitando a peça de José Régio.
P - Qual o papel da arquitectura neste filme?
MO - A arquitectura tem que estar sempre presente. Ou a natureza ou a arquitectura. A arquitectura não é uma arte porque as artes não têm finalidade. Um edifício tem que seguir um programa (uma casa, um hospital, etc.). O cinema não tem um programa, uma finalidade - mas tem um contexto.
JMG - Hoje, os espectadores de cinema vão ver filmes que não se parecem com filmes, mas mais por se parecerem com acontecimentos reais ou com outras coisas que não são filmes. O Manoel de Oliveira é o único cineasta do mundo que faz filmes que só se parecem com filmes. (Como o arquitecto que faz um hospital que só se parece com um hospital.) O Manoel de Oliveira tem falado muito da diferença entre cinema e cinematógrafo, que tem que ver com a maneira como faz um filme. Por exemplo, o plano fixo, a câmara sem movimentos disparatados...
Mo - Não é fácil responder, mas é rico... O cinematógrafo é quando sabemos que isto é isto e não aquilo. Enquanto o cinema, hoje, se pode confundir com o audiovisual - isso não é o cinematógrafo. Ainda sobre a arquitectura: Godard disse: um filme não é a arte nem a vida, é qualquer coisa entre as duas. Tal como a arquitectura, não é arte, não é vida, mas a vida também funciona dentro da arquitectura. O cinema é arte, mas está devedor de todas as outras artes - todas estão dentro do cinema. Bem, ficamos pelo intermédio, que já não é mau.
P - Porque escolheu usar o plano do céu estrelado e não as estrelas reais?
JMG - É como o cometa...
MO - O verdadeiro céu não precisava de o ser, porque aquele faz a função de um verdadeiro céu. Nem sei como se pode distinguir - porque o céu é múltiplo. As estrelas são filmadas com proximidade. Se são verdadeiras ou não, não é evidente. Não sei como se possa dizer que é falso. A vida é falsa. Nós temos regras e convenções que realmente fazem a vida. E o que é possível exportar para o cinema e para o teatro são as convenções. (Por exemplo, os sinais de trânsito são convenções, sem as quais não poderíamos viver...)
P - Porque usou uma iluminação natural, sem projectores sobre as figuras?
MO - A luz é variável: cenas de noite alternam com cenas de dia e mesmo de dia a iluminação varia. A iluminação interior está de acordo com o que seria na época, com chamas. É bom que a cena se adeque à situação, sem cair num artificialismo puro. É como é, aceitemos assim, e depois gostamos ou não gostamos, depende da opinião de cada um.
P - ..iluminação de forma cénica...
Mo - A iluminação tem que se manter, depois de escolhida. Mas é natural que varie, pois depende de estar longe ou perto, de frente ou de trás.
JMG - ...ajudar as pessoas a pensar no cinema doutra forma. Este filme tem um problema - a representação da majestade - não se filma um rei como outra pessoa qualquer (exemplo de Velasquez). Aqui há proximidade e distância: o plano fixo, a frontalidade. Os actores representam face à câmara. De lado só os pés.
MO - Eu filmo para o espectador. Não gosto do espectador passivo mas activo. Se o rei fala para a câmara, está a pôr o espectador em actividade - está a falar para ele, para activar o seu pensamento. Para que o pensamento esteja acima do sentimento. Porque não há nenhum sentimento que não passe pelo pensamento, pela razão. Ele pensando sente. No cinema, acho isso. Detesto aquele cinema que funciona como uma droga, em que o espectador perde o seu raciocínio e fica como embriagado. A razão tem que estar sempre em paralelo com o sentimento.
P - Olha de frente, interpela com o olhar, através da emoção dos olhos, e falando-nos frontalmente, implicando-nos. Há uma estranheza - porque é muito estranho passar um filme inteiro a ver uma pessoa de frente. E a relação espacial com os outros também é estranha. Não há um trabalho naturalista sobre o trabalho do actor, o actor a representar como na vida. Neste filme houve um trabalho excepcional com os actores...
MO - Não é verdade, eu não tive trabalho nenhum. Dei-lhes um papel, dei-lhes a situação. Eu gosto da espontaneidade. Eu não dirijo os actores. Os actores é que se dirigem. E dirigem-se para a câmara. A disposição é secundária. A ideia que subsiste é a de representação da vida.
Isso é para os americanos, fazem cada marmelada, a câmara para ali e para aqui, e as pessoas ficam a ver, matam sete por uma linha. Mas isso é diferente.
A vida é difícil de representar. O que é importante é que está na memória das pessoas. Por isso, a história é fundamental. A história é o que nos fica de memória do passado. Mas não sabemos qual é a realidade. Estamos outra vez no céu de estrelas.
JMG - Acho que o cinema está à frente da câmara e não atrás da câmara (como se aprende nas escolas de cinema). O que é preciso é inventar para um actor um cinema de que ele não possa fugir.
MO - É como um casamento sem esposa.
P - Porque escolheu o seu neto para o papel de D. Sebastião?
MO - Porque achei que não escolhi mal, mas não foi por ser meu neto... Exactamente como qualquer dos outros actores. Disse-lhe, como aos outros: fala baixo, fala devagar, porque o discurso é muito longo. Se falares depressa, fica o filme mais longo e mais chato. Dizer com mais calma, o que dá também mais calma ao espectador. Se te apressares, os espectadores ficam com pressa e mais chateados ainda. Ainda.
P - Poderia explicar o avião no céu e o Cristo a mover-se?
MO - Não é o Cristo, é o D. Afonso Henriques, que está pintado no cortinado com a imagem da guerra de Ourique. Cristo nunca teve aquelas barbas enormes, só Deus ou o Moisés. Ali é sonho. Os reis-estátuas também se movem, no sonho.
Post by: Leonor Areal
Uma lição aos estudantes
O Quinto Império, novo filme de Manoel de Oliveira
Adaptando um poema teatral de José Régio, Oliveira encena, com uma sobriedade extrema e num quase espaço único, as dúvidas do rei D. Sebastião em diálogo com seus conselheiros, antes de partir para o norte de África. A acção dramática segue-se com imenso interesse, mantendo-nos suspensos do seu desenvolvimento, à medida que vamos compreendendo o grau de loucura deste rei. Os actores são excelentes e fazem-se entender perfeitamente mesmo quando o texto tende para o arcaizante. Ricardo Trêpa incarna um D. Sebastião de modo tão convicto e convincente que torna real a memória desta personagem histórica.
A projecção deste filme, numa sessão para estudantes (cinema Monumental, em Lisboa, 4 de Março 2005), foi seguida de uma "lição" por Manoel de Oliveira a partir das variadas perguntas dos espectadores. As respostas do realizador surpreendem-nos sempre por serem tão lúcidas quão simples e desarmantes. Transcrevo de seguida algumas notas - sintéticas e esquemáticas - tomadas durante o debate.
Pergunta - O que pensa de Jean Vigo?
Manoel de Oliveira- O Jean Vigo não vem a propósito do Quinto Império. Teve um começo parecido com o meu. Tinha uma irreverência que não é agressiva nem ofensiva. Participou na criação de cineclubes. Na altura era um realizador que não estava na moda.
João Mário Grilo - Sobre a relação teatro/cinema: a peça de José Régio passada a cinema produz uma mudança na natureza da coisa. Quando acaba o filme, pensamos que estamos diante do verdadeiro D. Sebastião. O filme dá-lhe uma figura carnal. (A figura em nome da qual é feito o NON.)
MO - Da literatura veio o teatro, que é uma representação carnal, de que deriva depois o cinema, que é a continuação do próprio teatro, que é a representação da vida. O que representamos (no teatro) são as convenções que a vida tem. A vida é impossível de transpor, a não ser através dos actores, no teatro como no cinema - onde as imagens são imateriais, ao contrário do teatro. O espectador é que pode transpor, de uma imagem imaterial para uma imagem material, aquilo que o rei é (não o que o actor é). É o cinema enquanto sonho, o lado onírico do cinema. Quando era a preto e branco e sem som, o cinema provocava medo, etc. Quando ganhou cor e som, entrou numa fase que se aproxima mais da realidade - a imitação mais próxima. Assim, aceito que as pessoas vejam nestas imagens imateriais um rei material - como se fosse um sonho.
P - Em que medida a União Europeia incarna o quinto império?
MO - A UE é uma incarnação do quinto império. Qual era a intenção do quinto império? Um só rei, um só papa, ou, como dizia o Padre António Vieira, uma só crença, um só comando - para que não houvesse divergências e lutas. É o que pretende a união europeia. O quinto império é um desejo utópico de há muito tempo, na civilização ocidental europeia e também da civilização muçulmana. Um campo de harmonia universal. Aí está.
P - Que referências usou para fazer o filme?
MO - As referências foram a peça de José Régio, Eugénio Lisboa, Padre António Vieira, Camões, etc. E a 'janela do quinto império', a 'sala do quinto império'. Todas as referências históricas possíveis, acumulei-as, mas respeitando a peça de José Régio.
P - Qual o papel da arquitectura neste filme?
MO - A arquitectura tem que estar sempre presente. Ou a natureza ou a arquitectura. A arquitectura não é uma arte porque as artes não têm finalidade. Um edifício tem que seguir um programa (uma casa, um hospital, etc.). O cinema não tem um programa, uma finalidade - mas tem um contexto.
JMG - Hoje, os espectadores de cinema vão ver filmes que não se parecem com filmes, mas mais por se parecerem com acontecimentos reais ou com outras coisas que não são filmes. O Manoel de Oliveira é o único cineasta do mundo que faz filmes que só se parecem com filmes. (Como o arquitecto que faz um hospital que só se parece com um hospital.) O Manoel de Oliveira tem falado muito da diferença entre cinema e cinematógrafo, que tem que ver com a maneira como faz um filme. Por exemplo, o plano fixo, a câmara sem movimentos disparatados...
Mo - Não é fácil responder, mas é rico... O cinematógrafo é quando sabemos que isto é isto e não aquilo. Enquanto o cinema, hoje, se pode confundir com o audiovisual - isso não é o cinematógrafo. Ainda sobre a arquitectura: Godard disse: um filme não é a arte nem a vida, é qualquer coisa entre as duas. Tal como a arquitectura, não é arte, não é vida, mas a vida também funciona dentro da arquitectura. O cinema é arte, mas está devedor de todas as outras artes - todas estão dentro do cinema. Bem, ficamos pelo intermédio, que já não é mau.
P - Porque escolheu usar o plano do céu estrelado e não as estrelas reais?
JMG - É como o cometa...
MO - O verdadeiro céu não precisava de o ser, porque aquele faz a função de um verdadeiro céu. Nem sei como se pode distinguir - porque o céu é múltiplo. As estrelas são filmadas com proximidade. Se são verdadeiras ou não, não é evidente. Não sei como se possa dizer que é falso. A vida é falsa. Nós temos regras e convenções que realmente fazem a vida. E o que é possível exportar para o cinema e para o teatro são as convenções. (Por exemplo, os sinais de trânsito são convenções, sem as quais não poderíamos viver...)
P - Porque usou uma iluminação natural, sem projectores sobre as figuras?
MO - A luz é variável: cenas de noite alternam com cenas de dia e mesmo de dia a iluminação varia. A iluminação interior está de acordo com o que seria na época, com chamas. É bom que a cena se adeque à situação, sem cair num artificialismo puro. É como é, aceitemos assim, e depois gostamos ou não gostamos, depende da opinião de cada um.
P - ..iluminação de forma cénica...
Mo - A iluminação tem que se manter, depois de escolhida. Mas é natural que varie, pois depende de estar longe ou perto, de frente ou de trás.
JMG - ...ajudar as pessoas a pensar no cinema doutra forma. Este filme tem um problema - a representação da majestade - não se filma um rei como outra pessoa qualquer (exemplo de Velasquez). Aqui há proximidade e distância: o plano fixo, a frontalidade. Os actores representam face à câmara. De lado só os pés.
MO - Eu filmo para o espectador. Não gosto do espectador passivo mas activo. Se o rei fala para a câmara, está a pôr o espectador em actividade - está a falar para ele, para activar o seu pensamento. Para que o pensamento esteja acima do sentimento. Porque não há nenhum sentimento que não passe pelo pensamento, pela razão. Ele pensando sente. No cinema, acho isso. Detesto aquele cinema que funciona como uma droga, em que o espectador perde o seu raciocínio e fica como embriagado. A razão tem que estar sempre em paralelo com o sentimento.
P - Olha de frente, interpela com o olhar, através da emoção dos olhos, e falando-nos frontalmente, implicando-nos. Há uma estranheza - porque é muito estranho passar um filme inteiro a ver uma pessoa de frente. E a relação espacial com os outros também é estranha. Não há um trabalho naturalista sobre o trabalho do actor, o actor a representar como na vida. Neste filme houve um trabalho excepcional com os actores...
MO - Não é verdade, eu não tive trabalho nenhum. Dei-lhes um papel, dei-lhes a situação. Eu gosto da espontaneidade. Eu não dirijo os actores. Os actores é que se dirigem. E dirigem-se para a câmara. A disposição é secundária. A ideia que subsiste é a de representação da vida.
Isso é para os americanos, fazem cada marmelada, a câmara para ali e para aqui, e as pessoas ficam a ver, matam sete por uma linha. Mas isso é diferente.
A vida é difícil de representar. O que é importante é que está na memória das pessoas. Por isso, a história é fundamental. A história é o que nos fica de memória do passado. Mas não sabemos qual é a realidade. Estamos outra vez no céu de estrelas.
JMG - Acho que o cinema está à frente da câmara e não atrás da câmara (como se aprende nas escolas de cinema). O que é preciso é inventar para um actor um cinema de que ele não possa fugir.
MO - É como um casamento sem esposa.
P - Porque escolheu o seu neto para o papel de D. Sebastião?
MO - Porque achei que não escolhi mal, mas não foi por ser meu neto... Exactamente como qualquer dos outros actores. Disse-lhe, como aos outros: fala baixo, fala devagar, porque o discurso é muito longo. Se falares depressa, fica o filme mais longo e mais chato. Dizer com mais calma, o que dá também mais calma ao espectador. Se te apressares, os espectadores ficam com pressa e mais chateados ainda. Ainda.
P - Poderia explicar o avião no céu e o Cristo a mover-se?
MO - Não é o Cristo, é o D. Afonso Henriques, que está pintado no cortinado com a imagem da guerra de Ourique. Cristo nunca teve aquelas barbas enormes, só Deus ou o Moisés. Ali é sonho. Os reis-estátuas também se movem, no sonho.
Post by: Leonor Areal
quarta-feira, março 02, 2005
Repensar os Media

