segunda-feira, setembro 05, 2005
CINEFILIAS
"É evidente que o gosto pelo cinema fez surgir novas cinefilias nas novas gerações. Todos os que, como eu, assistiram com os seus filhos à projecção das fitas da série Scream sabem bem que se devem considerar espectadores antiquados. Ao passo que eu bradava com o horror exposto na tela, com a falta de respeito do cineasta pelas personagens e com a ausência de argumento, crianças de treze anos explicavam-me doutamente que a história não tem qualquer importância neste género de fitas: o que interessa é a arte de fazer aparecer o matador nas mais imprevisíveis circunstâncias (a arte do fora-de-campo, diria eu, se bem compreendia), a acumulação dos mais estereotipados sentimentos para melhor deles troçar, a utilização das mais perfeitas simulações sanguinárias, etc. Portanto, aqueles que passaram por essa experiência sabem que é imprudente (e, para dizer tudo, ingénuo) pretender que os amadores deste género de cinema o vêem apenas pelas “sensações” que ele proporciona e são incapazes de construir uma verdadeira cultura que se possa compartilhar (os pátios de recreio são os locais dessa partilha). A cinéfilia clássica, como único modo de ver as fitas, está morta. Reconheçamos que as cinéfilias são muitas: por que havemos de lamentá-lo?"
De um texto de Jean-Pierre Esquenazi, O sentido do público, a publicar brevemente na obra A Construção do Olhar. Como estou, neste momento, a rever o texto, partilho uma das afirmações do autor.
De um texto de Jean-Pierre Esquenazi, O sentido do público, a publicar brevemente na obra A Construção do Olhar. Como estou, neste momento, a rever o texto, partilho uma das afirmações do autor.