terça-feira, fevereiro 14, 2006
Munich - A aprendizagem do absurdo
Spielberg voltou a mostrar que o cinema pode ser um veículo de reflexão e de aprendizagem mesmo quando todos os ingredientes fílmicos com que nos presenteia parecem predestinados a sabotar qualquer possibilidade de entendimento ou concordância sobre a sua bondade cinéfila. De facto, esse carácter de bondade anteriormente angariado foi posto em causa por ambos os lados da contenda como se de verdadeira contenda se tratasse e não de cinema. No entanto, os elementos de reflexão que nos proporciona ao longo de todo o filme tanto nos podem guiar para leituras do essencial na natureza humana - por afinidades com o evoluir das personagens e das suas narrativas, ou para posturas em concordância com valores anteriormente assumidos mas muito pouco consonantes com a textura do filme. Aparentemente, têm sido estas últimas que têm encontrado maior eco mediático, quer como resultado de uma certa insatisfação judia face á «incorrecção cinéfilo-política» do realizador, quer como resultante de um certo «dever» palestiniano de contraposição. E na verdade, o filme de Spielberg tem muito pouco a ver com o inevitável e fatídico determinismo dessas posturas, pelo contrário, tem tudo a ver com uma das mais sérias tentativas de construção de uma narrativa em que a compreensão de um qualquer futuro possa ser diferente dos erros do passado inerentes às narrativas predominantes nos fundamentalismos antagónicos - religiosos, políticos e até mesmo artísticos. Spielberg poderá ser declarado como mais um autor proscrito, como tantos outros noutras lides, por ambos os lados, mas não deixa de ser um dos maiores e mais profundos cineastas dos nossos difíceis tempos.A todos os comentadores e estrategas que nas últimas semanas inundaram os media com as suas opiniões contundentes sobre o filme, mas que na maior parte dos casos nem o terão visto, ou não o terão querido compreender, recomenda-se um visionamento, se possível, desapaixonado e, sobretudo, humildemente atento, aproveitando o escuro igualizador e abertamente fraterno da sala de cinemapara a eventual catarse. Qualquer outra abordagem é razoalvente absurda, mas o entendimento do absurdo também requer ser aprendido. O cinema e Munich como seu exemplo de arte maior podem contribuir para essa aprendizagem.
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O charme discreto da bloguesia também vive dos «arrebentas»! E o Pacheco Pereira também. A bloguesia é o verdadeiro e, por enquanto, razoavelmente livre somatório das ideologias bloguesas.
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