segunda-feira, fevereiro 27, 2006
«Trailer» de um filme Abjecto:
Morreu o Zeca, «O último concerto da clandestinidade»,a Pública e a Pub que a pariu.
Esta semana não comprei o Público, não li a revista com o café e o pastelinho de nata da ordem, nem da desordem, estava com gripe, não das aves, das dores, no corpo, da febre, e na alma, da saudade, mas agora já sei que posso combater as ditas com «um analgésico em pó que o organismo absorve a uma velocidade 4 vezes superior», a quê? À entrega dos Óscares para publicidade insidiosa e peganhenta, inserida no seio da intertextualidade por um punhado de euro/dólares, como se de um mau «remake» de «Inserts» se tratasse?
Valeu o alerta lançado por uma parceira de vistas, comprei o jornal atrasado, desfolhei a revista e li, vi, o que era impossível não ler, ver, como um terrível filme de terror parasita incrustado na nossa literacia multimediática, multicultural, multifacetada, mas cada vez mais cega de tão pobre de espírito e de tão virada para o olho que cada um se convence ter em terra de cegos (a Pub se encarrega disso mesmo), enquanto o público compra e o público vende.
Contra tal estado de fitas, fica o alerta de Isabel Duarte. E Viva o Zeca, porque na terra dele, quem trepa no coqueiro é o rei.
E o que dirá o Provedor, testado jornalista, disto tudo?
Não se devem perder os próximos episódios.
VR-B
Meus parceiros de vistas,
Aí vai, para vosso conhecimento,
o que hoje remeti para o Director do Público.
Se tiverem lido e puderem fazer alguma coisa
- mais que não seja, comentar entre amigos - há muitos que vos agradecerão.
Isabel DuarteTo: "Rui Araújo" <provedor@publico.pt>
Sent: Monday, February 27, 2006 11:03 AM
Subject: Comentário
««ABJECTO:
Não me enganei. Não queria escrever "Objecto", ainda que isso de pouco me sirva. Na verdade, objectos é o que somos, nas mãos oficialmente impolutas de quem nos fornece "informação".No domingo passado, dia 26 de Fevereiro, li na "Pública" "A História do Homem que Combateu as Dores", escrita a corpo destacado, inserida num filete e encimada pelas letras "Pub". A tal história fora colocada a meio da página 35 da revista. Nessa página finalizava o jornalista Paulo Moura, a história de um concerto de José Afonso. O artigo começara na página 27. Era impossível, portanto, não ler o "coração" daquela página, ímpar, "nobre" em linguagem jornalística, publicitando um medicamento que, entre outras dores, combaterá as "dores musculares". Até porque a tal "História do Homem que Combateu as Dores" começava com o lugar comum "É um homem de causas...". Impossível não ler. Impossível não ler, porque o José Afonso morrera precisamente num final de Fevereiro, carregado de dor, física, mas, sobretudo, moral, porque sabia ser a sua morte premonitória: ela encerrava a visão baconiana da refocilagem no cadáver de "um homem de causas".Por isso, com as cores já ténues do mandato moral conferido pelo cantor à minha geração, peço-vos respeito - ou melhor, que o esqueçam definitvamente - porque ele não tinha nada a ver convosco, os que isto fazem, e morreu a tempo de não ver o que nos apresentam no prato, enquanto assobiam para o lado, marcando o ritmo desta procissão, onde asseguraram há muito a nossa presença, anestesiada e abúlica.
Abjecto, pois.
ISABEL DUARTE
