domingo, março 12, 2006

Algo vai mal no reino dos baixos-bávaros

Provavelmente ainda a propósito da maré «Quebra-Costas» (que já vai cheirando a algumas lamas pútridas da maré vazia em redor de uma ou outra etar da ria formosa), hoje, não sei bem porquê, lembrei-me de um dos filmes que marcou mais profundamente os meus «verdes anos» - Cenas de Caça na Baixa-Baviéra.
Provavelmente, também, nada no filme me fazia antever, naqueles inícios dos anos 70 plenos de greves estudantis e de actividades cinclubistas, que hoje, globalização ou não, os baixos-bávaros somos nós todos, incluindo israelitas que não toleram palestinianos, islamitas que não toleram caricaturistas, caricaturistas que se vêem gregos para explicar as suas liberdades de ultra-direita, gregos que não toleram turcos, turcos que não toleram curdos, curdos que não toleram ingleses por todas as patifarias que têm feito no médio oriente ao longo dos últimos 100 anos, ingleses que não toleram irlandeses, irlandeses que não toleram portugas na mesma rua, portugas que não toleram espanhois nas empresas de bandeira, espanhois que não toleram africanos às portas de ceuta como se fossem etarras bascos, bascos que não toleram espanhois, ... parece que já me estou a repetir, (salvaram-se os norte-americanos, como sempre, à boa maneira de hollywood). De facto, nada disto é novo, no império romano foi muito pior, na idade média nem se fala, dos descobrimentos-colonização cala-te boca e da inquisição para cá tem sido o que se sabe. O problema é que agora todos temos consciência do que se passa em todo lado, todos vemos, ouvimos e deglutimos à hora do jantar as intolerâncias globais com um ligeiro travo de fel que tentamos iludir com o mel (também não sei porquê, mas este mel parece-se bem mais com o intragável adocicado de um liebfraumilch) da distância e dos automatismos quotidianos. E como tal, somos infelizes, não fazendo grande coisa para quebrar este estado de infelicidade, excepto fugir para mais um dia de intolerâncias ao jantar servidas pelos media do nosso descontentamento contente, porque nos contém. Pode não ter sido isso que o Peter Fleischmann tenha querido dizer com o filme, mas hoje, tenho a certeza que foi isso que então entendi, ainda que não me tivesse dado conta.

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