domingo, março 05, 2006

Quem Pariu a PUB?



- a Nossa Editora das Dores…

- o Divino Espírito Santo da Potenciação dos Conteúdos…

- ou, tão simplesmente, tudo isto é uma prova de que,...
Deus existe e é Publicitário!



(2º episódio – Insert nº2 - da série «‘Trailer’ de um filme Abjecto» e, como se dizia à época, “um filme degenerado, mas digno”)

Hoje, já estou melhor, já tive direito a bolinho e jornal no largo da vila, pelo que não demorei muito a ver que o Provedor do Leitor do Público, tomou o assunto em mãos (bem, diga-se desde já) e questionou os responsáveis – Editora e Director – que responderam reconhecendo o erro mas dizendo que foi tudo um acidente de percurso, de falta de leitura e de análise mais atenta, podendo, mesmo assim, segundo se infere das palavras do Director, esse trabalho também ser feito por “leitores” mais “atentos” à eventual contaminação de “formatos”. Fica a gente satisfeita pela chamada de atenção, pelo reconhecimento do erro e pela pedagogia mediática. Até o pastelinho de nata e o galão desnatado escorregam melhor.
Mas, no entanto, há uma ligeira sensação de incomodidade intelectual que, teimosamente, se mantém colada à boca do estômago (que raio de mania de misturar letras com comes e bebes).
Ou seja, se isto foi tudo um “descuido grosseiro” da nossa Editora (do público, quero eu dizer) da “história do homem que combateu as dores” e “a sua inserção no meio de um texto sobre o Zeca Afonso resultou precisamente de o anunciante não escolher onde sai o anúncio e de a publicidade não conhecer o conteúdo editorial das páginas, e vice-versa”, como disse o Director, então como é que o anunciante sabia tão certeira e apropriadamente que aquele era “um homem de causas”? Será que, qual milagre pai de todos os milagres, anda por aí à solta, no seio das letras e das criatividades da capital, algum Divino Espírito Santo da Potenciação dos Conteúdos? Ou será que, qual supremo sinal dos tempos e da sua fezada nos «inserts» clarividentes de anunciação oportuna, Deus existe, e é Publicitário?
Fica a questão, de profundas implicações na teologia multimediática, para outros comentários e eventuais «postas» na desconstrução deste filme.

COMENTÁRIOS:
Vítor,
a "ligeira sensação de incomodidade intelectual" vem já de trás: na coluna da semana anterior, a propósito do post-it pubicitário que, em muitos exemplares, foi posto sobre o título do jornal, deixando apenas visíveis as três primeiras letras (PÚB), o provedor entende que o facto "só pode ser consequência do acaso" e "exclui, obviamente, qualquer intenção maliciosa (ou perversa)".
"Obviamente" parece ser, neste contexto em que não há muitos acasos, um adverbio de modo no mínimo inapropriado, se não imprudente.
 
Finalmente um comentário (já me questionava se estava só na blogosfera) que, vindo de quem vem Manuel Pinto, um dos principais responsáveis pela reflexão que ainda se vai fazendo sobre a natureza do jornalismo cá pelo burgo (vejam o blogue «Jornalismo e Comunicação» em http://webjornal.blogspot.com/), dá mais densidade à questão, designadamente ao incómodo aspecto da «coincidência». (Obrigado Manel).
 
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